o que nos inspira em nossa prática como profissionais de desenvolvimento?
“Natureza da gente não cabe em nenhuma certeza. O real não está na saída e nem na chegada, ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.
Riobaldo. Grande Sertão: veredas.
(Guimarães Rosa, 2005).
A maneira como o Instituto Fonte intervém no campo socioambiental origina-se na compreensão deste campo como organismo vivo, complexo e em permanente movimento. À medida que se desenvolve, cada iniciativa social constrói sua existência e sentido no dinâmico encontro de forças internas e externas, para assim realizar seu potencial.
Nestes processos de desenvolvimento, há inúmeros componentes a serem descobertos e observados. Compreender seus sentidos biográficos, origens e conseqüências, permitirá ao próprio organismo reorganizar suas funções, redirecionar seus esforços, mobilizar recursos e escolher caminhos que signifiquem uma nova ordem de movimento e de existência na sociedade.
Diante desta fascinante linha vital, aos profissionais de desenvolvimento cabe a missão essencial de ajudar os organismos a conhecerem mais a respeito de si mesmos. A leitura de processos a revelar porquês e tendências, a criação e a desobstrução de espaços para conversar e o estímulo à criação de soluções originais para a necessidade singular de cada iniciativa são a síntese do que se pode fazer.
Para desenvolver tais faculdades e apoiar a formação da equipe do Instituto Fonte como profissionais de desenvolvimento, temos percorrido um longo caminho de aprendizagem. Em primeiro lugar, temos nossas intervenções como permanentes objetos de estudo. A altervisão e a avaliação processual estruturam um ciclo de ação-aprendizagem capaz de nos manter atentos àquilo que produzimos na sociedade e provocados a renovar o repertório, aprofundar o sentido e melhorar a qualidade do trabalho.
Enquanto a leitura permanente da prática é a espinha dorsal da formação, as referências teóricas são aquilo que permite problematizar as ações, confrontar e expandir as concepções e compreender os sentimentos que sustentam as intervenções. Entre as principais referências utilizadas estão o ensaísta e filósofo alemão Goethe[1] e seus estudos sobre as ciências naturais (especialmente a botânica), cujo método de observação (observação goetheanística) é de especial importância. Ao seu lado, Rudolf Steiner[2] inspira parte significativa das nossas visões do homem e da sociedade e, em especial, sustenta o conceito da Pedagogia Social. Desenvolvida por Bernard Lievegoed[3], a pedagogia social pode ser compreendida como o ato pelo qual os sujeitos agem sobre si mesmos, nos outros e na sociedade a partir de perguntas, consciência e habilidades sociais que tornem possível o desenvolvimento dos indivíduos, das organizações e das condições sociais.
Ao lado destes autores, outra referência ao trabalho do Instituto Fonte é Carl Jung[4]. Seus escritos em torno dos símbolos e arquétipos, sua crença no potencial de cura da conversa e sua produção em torno do binômio luz-sombra é de grande relevância para a intervenção em processos de desenvolvimento.
Allan Kaplan[5], além de parceiro em trabalhos no Brasil e no exterior, é também uma grande referência para o Instituto Fonte e contribui de forma permanente com seu desenvolvimento. Os livros Artistas do Invisível e Development Practitioners Handbook, além de artigos, intervenções e iniciativas sociais (CDRA e Proteus) que desenvolveu, compõem um cenário estruturante de nosso trabalho.
Além dele, são importantes em nossa “biblio-biografia” Edgar Schein[6] e seus estudos sobre a consultoria de processos, David Kolb[7] e sua produção em torno da aprendizagem experiencial, assim como o educador Paulo Freire, em razão de sua vasta e fundamental produção no campo da edução e do desenvolvimento de sujeitos.
Por fim, em razão da característica mestiça do grupo de profissionais do Instituto Fonte e sua intensa expressão multiprofissional (veterinária, agronomia, farmácia, psicologia, comunicação, administração, música, pedagogia, economia, história, direito e artes plásticas), uma grande matriz de referências ético-políticas opera como pano de fundo do Instituto e contribui para a construção de uma visão holística dos processos sociais e da realidade brasileira.
Que dizer então de Rainer Maria Rilke, Guimarães Rosa, Mia Couto, Gilberto Freire, Dostoivésky, Kafka, José Saramago, Sófocles, Herman Hesse, Chico Buarque de Holanda, Manoel de Barros... e tanta arte que nos ensina a enxergar a humanidade e o mundo? Que eles estão todos por aqui.
[1] Johann Wolfgang von Goethe, ensaísta alemão, além de cientista, filósofo e botânico, Goethe foi uma das mais importantes figuras da literatura alemã (ler, por exemplo O Fausto) e do Romantismo europeu, nos finais do século XVIII e inícios do século XIX. Como botânico descreveu a Planta Primordial, em sua obra A Metamorfose das Plantas.
[2] Rudolf Steiner, nascido na fronteira austro-húngara, dedicou-se a editar as obras científicas de Johann Wolfgang von Goethe e tornou-se profundo conhecedor da obra de Goethe. Steiner aderiu a uma trajetória de conferencista e escritor, desenvolvendo a a Ciência Espiritual Antroposófica.
[3] Bernard Lievegoed, médico psiquiátra e ensaísta Holandês, é reconhecido pelo desenvolvimento de uma teoria sobre desenvolvimento organizacional. Fundou o N.P.I. (Netherlands Pedagogical Institute), que apóia indivíduos e organizações a realizarem suas missões econômicas, sociais e culturais.
[4] Carl Gustav Jung, cientista, ensaísta e psiquiatra Suíço, Jung esteve ligado ao movimento precursor dos estudos do inconsciente e estruturou a corrente conhecida como Psicologia Analítica.
[5] Allan Kaplan, psicólogo e escritor Sul-Africano, é criador do conceito Development Practitioner (profissional de desenvolvimento), foi fundador do Community Development Resources Association (CDRA) e autor de livros e ensaios no campo. Entre eles, Artistas do Invisível, publicado no Brasil pelo Instituto Fonte. Atualmente é membro do Proteus Initiative.
[6] Edgar H. Schein, nascido nos Estados Unidos da América, é professor no Sloan School of Management do MIT, é reconhecido por suas notáveis contribuições no campo do desenvolvimento organizacional, em especial na consultoria de processos e na cultura organizacional.
[7] David A. Kolb, nascido nos Estados Unidos da América, é professor de Comportamento Organizacional na Weatherhead School of Management na Case Western Reserve University, e reconhecido no campo da teoria educacional em razão de seus estudos sobre aprendizagem experencial.
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