NOVO - Diário de Inquietações - ensaio sobre a prática social de Cinara del Arco, participante do PROFIDES - Recife
"De alguma forma encontrei na Permacultura muitas respostas, ou pelo menos, caminhos e alternativas pra tornar possível uma convivência mais harmônica com anatureza. Houve o tempo de me apaixonar, de vibrar com a descoberta. Conheci um mundo novo, cheio de possibilidades. Acreditei que poderíamos diminuir a velocidade dessa devastação generalizada, sensibilizar pessoas. Ainda acredito. O desafio foi trazer para permacultura, o que no meu entendimento faltava. O aspecto social. Cansei de escutar de muitos permacultores: “isso não é permacultura”. Inicialmente me incomodei muito. Quis mudar inclusive o nome da instituição em que trabalho há 8 anos — o Instituto de Permacultura da Bahia —, somente porque o nome Permacultura de alguma forma nos impunha limitações. Os rótulos me incomodam! Aprisionam. Mas também percebi que poderíamos fazer uma permacultura diferente. Hoje somos referência para outros centros de permacultura. Somos o único instituto que ousou levar a permacultura para as camadas pobres, mais necessitadas. Ousamos falar de espiritualidade (palavra proibida em muitas rodas de permacultura), ousamos até dizer que permacultura é espiritualidade!
Fomos combatidos, hostilizados. Resistimos. Ampliamos o conceito, re-inventamos. Ao passo que fomos superando esses conceitos cristalizados, conseguimos trazer à vida a “nossa permacultura”. Fase ímpar, com certeza divisora de águas pra todos que resolveram embarcar nessa aventura idealística. Pronto, tudo tranqüilo? Definitivamente não! Para que isso fosse possível, tivemos que impor tempos e processos que nada tem haver com qualidade de vida, cuidado com as pessoas, preceitos da ética permacultural.
Sinto-me hipócrita quando falo sobre permacultura, qualidade de vida, religação. Quando tento sensibilizar os pequenos agricultores para que compreendam a importância de produzirem seu próprio alimento, de cuidarem da saúde, de cuidarem da terra! Moro em apartamento. Literalmente tem alguém que defeca na minha cabeça e eu defeco na cabeça de outro alguém. Perdoem as colocações, mas as inquietações são latentes e nem sempre sei a melhor forma de expressá-las. Ando sozinha no meu carro pra cima e pra baixo. Viajo de avião inúmeras vezes por ano. Compro minha comida e muitas vezes não sei de onde vem. Não composto meu lixo, não vou às reuniões de condomínio e nem sei o nome de todos os moradores do meu andar. Faz tempo que não vejo uma estrela cadente. Como carne. Sobrecarrego-me de trabalho, concentro atividades. Moro a poucos quilômetros da praia e passo meses sem colocar o pé na areia".
Leia o ensaio completo no anexo, em pdf.
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| Anexo | Tamanho |
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| Cinara Del Arco.pdf | 134.34 KB |
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