Com quantos olhares se produz desenvolvimento?

por Rogério Silva
diretor executivo do Instituto Fonte

 

 

Não é de hoje que as organizações do campo social estão imbuídas da necessidade de estabelecer cooperações. Tendo em vista o crescente volume de discursos e eventos em torno da construção de alianças e parcerias entre diversos atores sociais, somos levados a crer que o conceito chegou a ganhar tom imperativo nos últimos tempos, reificado entre tantos outros standards por meio dos quais se costuma julgar a qualidade das práticas sociais.

Em meio a este cenário, nos ocorreu resistir à maré e fazer emergir algumas perguntas que nos ajudem a olhar a questão de forma crítica: temos nos perguntado quais são os sentidos da construção de parcerias e alianças entre nossas organizações, sejam elas empresas, governos, universidades ou organizações da sociedade civil? Por que estamos investindo tanta energia nesses movimentos? O que buscamos nas relações que estabelecemos? Com que espírito embarcamos nessas jornadas coletivas?

Quanto mais nos aprofundamos na compreensão do que seja o campo social, maior é a percepção de que a escolha pelas parcerias se sustenta muito mais na natureza do processo social (o objeto em si) do que pelo utilitarismo político e/ou econômico das uniões. Como então lidar com um objeto que dialoga (interage) com as intervenções, que não se inscreve em um único tempo ou território, não se deixa conhecer por uma disciplina e, por fim, subverte o conceito de objeto?

Entre as diversas respostas que se podem alcançar para estas perguntas, parece que estamos sendo desafiados a compreender que, para tratar os processos sociais com a integralidade que lhes é peculiar, é também essencial promover movimentos fundados em leituras integrais. Articulada de forma a sustentar diferenças, a imagem construída em múltiplos olhares e argumentada em múltiplos discursos é, em si mesma, uma nova ordem de compreensão, sentimento e prática.

Será essa multiplicidade que estamos procurando em nossas parcerias? Longe de defender aqui uma imagem de parcerias ideais, porque não acreditamos que existam, nos parece essencial compreender os princípios que nos orientam na construção e na manutenção dessas parcerias. Um princípio de impulso, que nos revele o porquê fazer. Um princípio de método, que nos oriente como fazer. E um princípio de propósito, que ajude a sustentar o fazer juntos. Sua organização tem olhado para isso?

É este o tema que escolhemos explorar neste terceiro Boletim Direto do Fonte de 2007. Em meio a demandas sociais cada vez mais complexas e ao desafio de ajudar a sociedade brasileira a aprofundar sua compreensão sobre as relações das organizações da sociedade civil com o Estado e o setor privado, nos pareceu importante articular opiniões e criar oportunidades de estudo sobre o tema das alianças intersetoriais.

Procuramos olhares ou procuramos espelhos? Para problematizar o tema, produzimos aqui entrevistas com Roseni Sena (UFMG) e Leonardo Sakamoto (ONG Repórter Brasil), na tentativa de olhar para diferentes dimensões da intersetorialidade. Além das entrevistas, trazemos também o artigo The Poverty of “Partnerships” (em inglês), produzido por James Taylor, diretor da organização Sul-africana CDRA, parceira do Instituto Fonte, e o artigo Desenvolvimento e Terceiro Setor, de Antonio Luiz de Paula e Silva, um de nossos associados. Com isso tentamos explicitar experiências, opiniões e preocupações de grande sentido neste debate.

Na tentativa de alimentar mais reflexões sobre o tema, a Livraria Fonte, em parceria com o FICAS, promove no próximo dia 14 de novembro o Diálogos em Espiral. O encontro é um esforço de articulação entre nossas organizações com a intenção de promover trocas de experiências e construção de conhecimento entre organizações que atuam no campo social. Você é nosso convidado.

Esperamos que os diálogos, as provocações e as oportunidades que reunimos neste boletim estimulem um olhar mais ativo e profundo sobre as parcerias que sua organização está ou não estabelecendo. Afinal, sempre é fundamental perguntar: que sentido têm as relações de parceria que estamos construindo? Fale conosco e boa leitura.

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