De onde vem o dinheiro?
por Rogério Silva
diretor executivo do Instituto Fonte
As organizações do campo social são organizações produtoras de sujeitos. Por aqui elaboramos discursos, pensamento crítico, movimentos combativos e mecanismos de pressão. Aqui se formulam modelos e se experimentam mudanças. Na maioria das vezes, realiza-se muito trabalho em cenários de muito poucos recursos. Em escolas, associações comunitárias, cooperativas e institutos, tantas vezes nos acostumamos a trabalhar com o invisível.
Nossa prática histórica não tem sido a prática da confecção de produtos. Nosso espírito parece não se materializar nas linhas de produção, nos acordos comerciais e nos planos de negócio. Uma sensação profunda e certas vezes inexplicável nos traz a certeza de que a essência da prática social parece muito pouco compatível com a dinâmica do mundo empresarial.
Quanta contradição cabe então em nossas organizações? Em busca de recursos para ativar cooperativas, para alfabetizar jovens e adultos, para fortalecer conselhos de direitos ou para preparar educadores e gestores, temos percorrido caminhos longos, áridos e algumas vezes contraditórios para obter financiamento: porque o dinheiro precisa chegar!
Muitas das nossas organizações se fortaleceram a partir de doações de pessoas físicas. Outras vezes foram agências e fundações internacionais as nossas doadoras. Em outras oportunidades, editais e convênios governamentais nos trouxeram o apoio necessário e, nas últimas duas décadas, ampliamos de forma significativa a captação de recursos junto a empresas e fundações brasileiras – nosso capitalismo amadureceu.
Em busca de alternativas a esses mecanismos históricos de financiamento, saímos também em busca auto-sustentabilidade, projetando imagens de autonomia técnico-política, acesso a recursos livres e diminuição da dependência histórica dos setores privado e governamental. Curiosamente, entre as estratégias que utilizamos, ganharam força os negócios sociais e organizamos a produção e a oferta de serviços (cursos, por exemplo) e produtos (livros e artesanatos) em planos de negócio. As coisas mudaram.
Mas, mudamos os princípios ou a compreensão que tínhamos sobre eles? Tornamo-nos menos críticos e mais oportunistas? Fizemos escolhas com sabedoria ou sob o reproche das estruturas organizacionais que criamos? Passamos a conviver melhor com contradições em nossas práticas de mobilização de recursos ou não as enxergamos? Costumamos olhar para suas conseqüências sobre nossas causas, nossa imagem e as populações com quem atuamos? A serviço de quem estão nossos programas, projetos e organizações? E afinal, de onde vem o dinheiro?
Essas são algumas das perguntas que escolhemos explorar nesse segundo Boletim Direto do Fonte de 2007. Em meio a diálogos quentes sobre mobilização de recursos, migração de financiamentos da América Latina para a África e Leste Europeu, CPI das ONGs, doações casadas para Conselhos Municipais e de muito reforço ao empreendedorismo social, parece importante reunir opiniões e criar oportunidades de estudo que ajudem as organizações do campo social a melhor lidarem com a composição e o fluxo de suas receitas.
Para problematizar o tema, articulamos aqui entrevistas com Fernando Rossetti (GIFE), Francisco Galdino (Fundação Projeto Sorria) e Daniela Fainberg (Instituto GerAção). Em um bate papo tão rico em conteúdos quanto em provocações, são explicitadas experiências, opiniões e preocupações de grande utilidade a este debate. Afinal, de onde vem o dinheiro?
Ousamos também no lançamento do curso Como Elaborar Planos de Negócios. Partindo da idéia de que esta ferramenta tem sido cada vez mais comum entre as organizações do campo social, construímos um itinerário de formação que quer ajudar os participantes a criarem e implantarem planos de negócios, ao mesmo tempo em que refletirem criticamente sobre as oportunidades e os riscos destes modelos: compreendemos seus significados e implicações técnicas e políticas?
Para ampliar a compreensão da questão do financiamento, no próximo dia 03 de agosto o Instituto Fonte promove também a oficina Conseqüências da doação: como lidar com a dependência nas relações de ajuda? Reunindo seus apoiadores, a intenção da oficina é aprofundar a compreensão sobre o fenômeno da dependência nas relações de doação ao mesmo tempo em que produzir e disseminar conhecimento sobre o tema.
Na tentativa de manter o fogo aceso, daremos também início a um ciclo de conversas em torno de temas associados à sustentabilidade das organizações do campo social. Promovido pela Livraria Fonte para nossa comunidade, o Café Pergunta terá sua tarde inaugural em 29 de agosto, reunindo sujeitos interessados em trocar experiências e referências práticas e teóricas sobre financiamento de organizações do campo social.
Esperamos que os diálogos, as provocações e as oportunidades que reunimos neste boletim ajudem você a chegar mais perto de sua organização, a enxergá-la de novas perspectivas e ajudá-la em seu processo de desenvolvimento. Será esse o nosso negócio? Fale conosco e boa leitura.
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