Artigo - Para repensar a noção de sustentabilidade em iniciativas sociais

 

 

Neste curto ensaio parte-se do pressuposto de que a quantidade de recursos ou de dinheiro que uma organização dispõe não define a sua sustentabilidade. A partir daí explora-se a idéia de que sustentabilidade e maturidade estão intimamente relacionadas em uma iniciativa social.
 
por Antonio Luiz de Paula e Silva
consultor associado do Instituto Fonte

 


Como reconhecer uma iniciativa social madura? Essa é uma pergunta difícil, que talvez não tenha uma resposta absoluta ou definitiva. É possível afirmar que, assim como uma pessoa amadurece (mais ou menos) no decorrer de uma vida, também uma iniciativa social amadurece com o passar do tempo. Essa analogia permite fazer algumas considerações interessantes para quem a dirige. Quanto mais madura uma pessoa ou uma iniciativa, melhor pode ser a sua contribuição para a sociedade.

Maturidade não pode ser avaliada estritamente pelo tempo de existência: nem sempre quem viveu mais é mais maduro do que quem viveu menos. Por outro lado, um ente tende a ser mais maduro conforme fica mais velho.

Uma iniciativa social madura certamente sabe o que é uma “infância”. E o que é a “infância” nesse caso? É aquele período em que ela permanece dependente de quem a criou. Uma iniciativa social madura também pode compreender a sua “juventude”. “Juventude” pode ser considerada como aquele período marcado pela confiança na capacidade de improvisar, pelo desafio de se posicionar diante do mundo sem se submeter e pela dor e prazer da diferenciação.

Uma iniciativa social madura possivelmente não se entregou à velhice, tampouco. Não estará o envelhecimento relacionado à perda de vitalidade, à tendência para a repetição e ao impulso de fechar-se em si?

A maturidade deve conter atributos desenvolvidos durante essas etapas. Quanto de curiosidade e alegria em aprender deve restar da infância? Que disposição em experimentar e realizar ainda se pode contar da juventude? Que noção de morte e renascimento se deve nutrir pelo convívio com a possibilidade de envelhecer?

Maturidade é fruto de um aprofundamento, de uma evolução qualitativa. Talvez seja um estado, não um estágio. Diz respeito à maneira como se vive uma etapa no desenvolvimento. Por que não pensar em uma infância madura ou em uma juventude madura? Quem não fica maravilhado diante de uma infância bem vivida? Por outro lado, facilmente se encontram iniciativas vivendo uma dependência imatura ou uma juventude super-madura. É como se algo não estivesse sendo vivido em plenitude, mas com sofrimento. O sofrimento é tanto maior, quanto maior o apego a algo. Entre o apegar e o desapegar se dá o amadurecimento de uma iniciativa.

Como avaliar o grau de maturidade de uma iniciativa social? Pode-se prestar atenção a dois indicadores: a capacidade de se sustentar e a capacidade de assumir responsabilidade. Não é preciso maturidade para se construir e manter uma família?

À capacidade de se sustentar podemos chamar sustentabilidade (sustenta-habilidade). Essa capacidade tem bem menos a ver com o que se possui do que com o que se é. O conhecimento ecológico nos traz importantes dicas a respeito de sustentabilidade. Uma matriz energética baseada na exploração de combustíveis fósseis, por exemplo, não se sustenta. Sustentabilidade e renovação estão intimamente relacionados. Só é sustentável aquilo que se renova. O que não se renova não se sustenta.

A ocupação exclusiva com o presente é insustentável. Tudo o que é vivo está em movimento, em processo. Uma organização que está estável e saudável num determinado momento, mesmo que esse momento sejam décadas, precisa estar atenta ao fato de que o mundo está mudando. Esse mundo é tanto a comunidade ao seu redor, como as pessoas que a compõem. Novas exigências advirão dessas mudanças. Receitas e políticas que valiam anteriormente podem lentamente perder sua validade. O passado se decompõe e o futuro se apresenta como semente, simultaneamente. O presente foi semeado no passado e vai fertilizar o futuro.

Quando uma organização deixa de atender às expectativas das pessoas, elas se afastam e/ou passam a criticá-la. O equilíbrio entre crítica e reconhecimento que uma iniciativa recebe se altera com o passar do tempo e sugere o grau de renovação que é necessário. Sustentar-se é ser capaz de enfrentar situações diversas e manter um bom equilíbrio entre pólos. Um profissional que tem 20 anos de experiência não é necessariamente mais capaz de se sustentar do que um jovem recém-formado. Grande parte da capacidade de se sustentar diz respeito à maneira como se relaciona com o mundo ou, dizendo de outra maneira, como o seu mundo interior se relaciona com o mundo lá fora.

A necessidade de renovação pode ocorrer em qualquer etapa da trajetória de uma organização. Um ser vivo (ou uma parte dele) que deixa de se renovar começa a morrer. Renovar envolve preservar o que ainda é fundamental e deixar ir aquilo que precisa morrer, para que o que precisa surgir possa ter espaço. No dia-a-dia, é preciso estar atento a modelos de pensamento, princípios e pressupostos tratados como sagrados e personagens tidos como intocáveis. Em algum momento, é justamente neles que se vai ter que mexer. Existem muitos casamentos estáveis, mas quantos são sustentáveis?

Uma iniciativa social que está tendo dificuldades de se sustentar precisa tomar cuidado para não justificar a sua situação apontando causas externas e se colocando num lugar de vítima de uma situação, por mais cruel que isso possa parecer. Maturidade é assumir responsabilidade, ver-se como responsável, investigar “o que isso tem a ver comigo?”. As dificuldades de hoje são frutos de escolhas feitas anteriormente, com maior ou menor consciência. É muito fácil transferir a responsabilidade dessas escolhas para outros: assumir responsabilidade é nadar contra a corrente.

Maturidade e sustentabilidade não têm a ver com perfeição, mas com desenvolvimento e evolução, com estar a caminho. Esse estar-a-caminho é repleto de sutis contradições, muito difíceis de serem percebidas no dia-a-dia; toda iniciativa enfrenta contradições, mas nem toda iniciativa percebe suas contradições. Nas contradições reside uma possibilidade de evolução e é muito comum a sua negação. Sempre haverá aspectos maduros e imaturos em uma entidade social.

A capacidade de assumir responsabilidade tem a ver com a visão de como uma iniciativa se insere no mundo, sendo que o mundo pode ser descrito como “eu”, “eles” ou “nós”, dependendo de como a relação com esse mundo é compreendida. Sob um ponto de vista, toda organização faz parte de uma comunidade, é mantida por uma comunidade e se compõe de uma comunidade. Ela não está separada de sua comunidade. A capacidade de relacionar, e não isolar, determina a capacidade de responder à situação em que se vive (responsabilidade = resposta-habilidade). Um pai maduro reconhece que o comportamento inadequado de seus filhos tem a ver com sua própria maneira de ser e luta por se transformar, ao invés de culpar ou rotular aos pequenos. Ele assume que a saúde da família depende também dele.

Maturidade e complexidade caminham juntas, portanto. Quanto mais profundas as questões, mais profundas as contradições e o mundo atual reflete essa dinâmica, com seus aspectos positivos e sombrios.  Amadurecer é um caminho de expansão de consciência, de aprender e desaprender, de apegar e de deixar ir, de ser resistente e vulnerável, de controlar e respeitar, simultaneamente. Como disse uma colega dirigente de iniciativa social, amadurecer tem a ver com parar de dar respostas e começar a fazer perguntas para si e para os outros. Aí está a chave para a sustentabilidade.


 

Comentários

Enviar novo comentário

O conteúdo deste campo é privado não será exibido publicamente.

Direto do Fonte

Assine o nosso boletim bimestral

Apóie!

Compre na Livraria Cultura clicando no banner abaixo e apóie uma liderança do campo social.

 

Parte de seu investimento em cultura financia o Programa Profides do Instituto Fonte.