Governança e Militância
por Antonio Luiz de Paula e Silva
diretor executivo do Instituto Fonte de 2004 a 2006
A época de eleições é um bom momento para repensar algumas premissas de governança nas instituições. Boa parte da descrença com relação à política partidária atualmente pode vir do fato de eleitores percebem que os políticos têm um discurso e uma prática distantes entre si. Em que medida aquelas instituições que zelam "pela transformação da sociedade" se comportam da mesma maneira? Como são tratadas as relações entre os grupos interessados nessas organizações? Quão democráticas essas instituições podem ser consideradas?
Estar no governo (seja de uma comunidade ou de uma instituição) implica, consciente ou inconscientemente, manter aquilo que foi conquistado, o poder. Em função disso, por exemplo, formam-se equipes com modos de pensar similares e que atendem interesses de grupos de influência mais forte. Pois isso também não acontece nos conselhos e diretorias das ONGs e fundações corporativas? Em que medida o conselho da organização em que você trabalha pode se considerar representativo? Ou melhor, representativo de quem? É, por exemplo, um conselho de intelectuais, no qual um “bom embate” de idéias se realiza? Ou é um espaço que espelha a realidade "lá fora", onde uma silenciosa e contida "luta de classes" acontece? Quais camadas da população estão representadas neste conselho?
Representatividade está atrelada a legitimidade: a composição de um conselho simbolicamente reflete o grau de legitimidade que uma instituição tem perante determinados grupos e perante quais não tem. Por que isso não preocupa muita gente?
A diversidade é um outro valor muito "afirmado" no espaço das iniciativas sociais, corporativas ou não, atualmente. Quão diversificados são os grupos dirigentes das organizações que "pautam" o setor social brasileiro? Há um surdo no seu conselho? Há negros? Há indígenas? Homossexuais? Há gente pobre? Se não há, o que isso significa? Talvez signifique que nessa instituição nunca se pensou nisso. Talvez signifique a existência de um preconceito e mesmo que essa instituição foi cooptada por modos de pensar dominantes e excludentes. Ou, como você acha que deve ser o grupo dirigente de uma instituição que trabalha pela distribuição de renda?
Será que a militância se perdeu dentro das ONGs? Será que o modo de pensar "empresarial" e “profissionalizado” desvia a atenção das causas sociais mais profundas "sem querer"? Será que o deslumbramento pelo tema pelo qual se trabalha "bitola" a visão de quem está no poder? Costuma-se afirmar que grupos dirigentes devem ter pessoas brilhantes e reconhecidas (ou conhecidas?) externamente -- esse não é o paradigma de uma sociedade onde há uma elite dominante? Isso não torna o conselho mais um espaço hegemônico? Que institucionalidade é essa que está sendo nutrida?
Militância não é apenas discurso, é também prática. O que cada pessoa faz reflete a sua militância, suas crenças, suas causas. Se buscar o caminho mais fácil é a tendência natural, que militância é essa? É uma militância compensatória, que cede a pressões quando algo fica insustentável? Ou é emancipatória, que faz o que prega e luta para aprender como trazer algo diferente para dentro da própria casa?
Cada instituição precisa estar atenta às suas próprias contradições. Como elas são tratadas quando querem se manifestar? Ao tentar afastá-las, algo sombrio pode estar sendo alimentado. Muitas vezes são interesses, e não valores, que nos fazem evitar explorar contradições.
Algumas perguntas podem ter muito valor para que um novo mundo se torne possível em cada pessoa, em cada organização, em cada comunidade: qual é a crença que está na base daquilo que fazemos? Como a praticamos entre nós? Quais riscos assumimos? Em que somos ingênuos, críticos e hipócritas? Do que abrimos mão para garantir a nossa sobrevivência? Onde estamos simplesmente sendo cooptados? Quais dos nossos ideais estão colocados em "caixinhas", ideologias ou conceitos? Quais são as nossas contradições?
A construção de uma nova militância está em não reagir ao que parece estranho, ao se controlar o ímpeto de afastar o que parece ameaçador, em se abrir para aquilo que se manifesta contraditório e questionador. Nenhuma escolha está sendo feita neste caso, a não ser buscar algo novo em si mesmo, a partir do reconhecimento da dinâmica social em que se está inserido.
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