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Entrevista com Christopher Schaefer

 

O consultor Christopher Schaefer*, autor do livro 'Desenvolvimento de Iniciativas Sociais: da visão inspiradora à ação transformadora', conversou com o Direto do Fonte sobre o Profissional de desenvolvimento, investimento social e sobre seu livro, que acaba de entrar na segunda edição no Brasil.

 


Instituto Fonte - Como você definiria um Profissional de Desenvolvimento? Quais qualidades este profissional deve ter para propiciar as mudanças que quer ver no mundo?
Christopher Schaefer - Eu diria que o que é importante, primeiramente, é entendermos que organizações e comunidades refletem o ser humano e que nosso trabalho mais essencial é ajudar essas organizações a criarem condições em que o ser humano possa achar significado e se desenvolver. Acho que, o que isso significa de fato é que precisamos ajudar organizações a se movimentarem e a se desenvolverem. Eu suponho que a qualidade essencial para um profissional de desenvolvimento é poder demonstrar algo no desenvolvimento, nas tendências e nos valores neles mesmos (ta esquisito isto), demonstrar que eles são abertos, interessados, engajados, disponíveis para ajudar e que têm métodos e ferramentas para ajudar organizações a irem para frente. 

Outra coisa importante é que eles devem ser capazes de criar espaços abertos para pessoas, criando segurança para elas falarem sobre aquilo que precisa ser conversado.

É critico no trabalho só focarmos o que é ruim e que não está funcionando. É importante ajudar as pessoas a olharem para o que é positivo na organização ou na comunidade, para o que está funcionando, para que seja possível construir a partir do que é positivo e negativo, porque se você só focar aquilo que é negativo, aí o processo se torna depressivo, não motiva, o que significa desperdício de energia.

Uma outra perspectiva seria dizer que o profissional de desenvolvimento precisa saber como a energia circula e funciona na organização e promover a circulação das energias de força positiva que estão nela, as forças de mudança, as forças de desenvolvimento, as forças de liderança.

Por último eu diria que é importante que o profissional de desenvolvimento não procure por respostas categóricas ou soluções fixas. É preciso que eles ajudem a organização a dar o seu próximo passo em direção ao seu desenvolvimento.

IF - Existe hoje um grande movimento mundial no sentido de avaliar o que tem sido feito na esfera social. Percebe-se uma necessidade por parte das iniciativas (e também dos financiadores) de saber se as ações sociais estão fazendo diferença e qual tem sido, enfim, o papel das ONGs. Como você vê este movimento? Como, do seu ponto de vista, a análise de resultados pode ser feita de modo a trazer aprendizado para as iniciativas?
CS - Sim, existe um movimento de fundações, corporações e agências governamentais para saber se o dinheiro deles está fazendo alguma diferença, e eu acho que existe algo tanto negativo quanto positivo nisso. O positivo é que nos faz pensar sobre resultados e em como podemos determinar se algo é saudável ou menos saudável.

Isso nos incentiva a criar valores quantitativos e qualitativos, nos envolve para tentar olhar a questão da qualidade com mais atenção, pois os aspectos quantitativos são geralmente bem claros e ainda são impostos. Então, essa questão de lidar com o quantitativo e com o qualitativo se torna uma questão central.

E outra coisa positiva: isso nos torna mais responsáveis, o que é uma virtude, pois muitas pessoas, em trabalhos de desenvolvimento, querem fazer suas atividades e não acessam sua própria responsabilidade final face aos objetivos do trabalho.

IF - Outro grande movimento que podemos perceber é o aparecimento de ´braços´ sociais dentro das empresas, as chamadas fundações corporativas. Elas, muitas vezes, além do apoio financeiro em si passaram à atuação, e também têm praticado o que tem sido chamado de ‘investimento estratégico’. Este tipo de investimento significa escolher uma linha específica de investimento e segui-la. Como você vê esta tendência? Quais são os perigos e as oportunidades desta maneira de apoiar e realizar iniciativas sociais?
CS
- Eu não sei muito sobre esta questão, não sei nada sobre o contexto brasileiro relacionado às fundações ligadas às corporações. Nos Estados Unidos, na verdade, as corporações doam um pouco de dinheiro e fundações bem estabelecidas doam muito dinheiro.

Eu não estou muito feliz a respeito desta tendência. Os que usam o dinheiro é que deveriam determinar o seu uso, pois senão não é mais dinheiro dado, se torna dinheiro preso aos objetivos das corporações ou visões corporativas.

Penso que é uma tendência perigosa, mais perigosa do que a priorização do impacto social. Pois significa que isso em algum momento se torna, de algum jeito, parte das atividades de autopromoção da corporação. Por exemplo: existem empresas que querem ser reconhecidas por se preocupar com a energia verde, mas de fato investem muito pouco nisso. Então são motivos que estão por trás do que as corporações estão fazendo que são, de fato, importantes. É muito positivo que fundações e empresas estejam envolvidas em um diálogo com instituições que precisam de dinheiro.

IF - Quais são as principais qualidades do dinheiro, considerando suas funções essenciais como compra, empréstimo e doação?
CS - O caráter do capital deve encaixar-se com o caráter do empreendimento. O que eu quero dizer com isso é que o melhor jeito para capitalizar ou dar suporte à cultura ou às iniciativas sociais é com dinheiro doado. E o segundo melhor jeito é claramente prover um dinheiro emprestado, mas aí em termos favoráveis. Dinheiro dado está de alguma maneira conectado com resultados a longo prazo. O dinheiro emprestado pode ser usado para planos de médio prazo, mas não para estratégias de desenvolvimento a longo prazo.

Como a consciência, a responsabilidade e a clareza ao se lidar com dinheiro se relacionam com o financiamento e a sustentação das iniciativas sociais?
É importante para as iniciativas sociais, realmente, ter um bom entendimento de seu rendimento. Para algumas esse rendimento vem de dinheiro doado e outras podem ter algum tipo de comercialização de produtos. Muitas organizações não lucrativas não têm uma boa renda financeira, então, para elas, é essencial fazer planos financeiros e projeções para que se possa ser efetivo.

IF - O seu livro foi publicado pela primeira vez em 1996 e as pessoas continuam comprando e usando. O que torna seu livro atual e útil para as iniciativas hoje em dia? Você acredita que houve alguma mudança nas iniciativas neste período? Se fosse reescrever o livro, que idéia, conceito ou experiência você acrescentaria?
CS
- Eu não posso responder porque Desenvolvimento de iniciativas sociais: da visão inspiradora à ação transformadora continua útil e vendendo. Eu acredito que ele tenta unir alguns conceitos de desenvolvimento e métodos por meio de exemplos práticos, mesmo sendo todos os exemplos de contexto europeu ou norte-americano. Acho que exemplos, conectados às idéias, tornam acessível e útil o livro, e essa foi a intenção que coloquei nele. Eu fiquei muito feliz em saber que seria feita uma segunda edição brasileira, que o livro é útil e que está vendendo bem no Brasil.

Todo esse processo de desenvolvimento e crescimento de sociedades civis são fundamentais para o futuro das sociedades e nações porque há um certo processo de colapso que acontece hoje, entre política e dinheiro ou entre política e corporações. E então você poderia dizer que o poder do capital se torna dominante e a “causa” humana é externalizada nos nossos modelos econômicos corporativos.

As sociedades deveriam se responsabilizar pelos problemas sociais e ambientais. Acho que precisamos do setor social para lembrar às pessoas que na verdade o governo e o segundo setor têm uma responsabilidade para o bem estar comum. A ambos não cabem apenas o poder, no caso do governo, e o lucro, no caso das empresas.

Mas na verdade sou bem otimista sobre o futuro e vejo cada vez mais organizações não governamentais em todas as sociedades e penso que isso oferece a possibilidade de nos desenvolvermos. Isto oferece esperança.

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*Sobre o autor Christopher Schaefer
Professor e diretor do Sunbridge College em Spring Valley, Nova York, que é uma escola superior livre dedicada à formação de professores Waldorf;
Consultor e orientador de Escolas Waldorf, Comunidades Curativas e outras organizações semelhantes, sem fins lucrativos, assim como de pequenos e médios negócios;
PH.D. em Política Internacional, ensinando Política Americana de Relações Exteriores no Massachusets Institut of Technology (M.I.T.)
Com Tyno Voors escreveu Desenvolvimento de Iniciativas Sociais - da visão inspiradora à ação transformadora – 1986, que está na segunda edição.