Existem ao menos dois momentos numa crise que nem sempre são simultâneos: quando a crise começa e quando se decide olhar para ela. A crise política brasileira é um exemplo disso: ela deve ter começado há muitos anos atrás, mas é possível que muita gente só tenha se dado conta da sua profundidade a partir do estardalhaço da mídia dos últimos meses.
Será que as questões relacionadas à política nacional têm correlação com as questões institucionais de qualquer iniciativa social, seja ela de uma empresa, de uma ONG ou de uma prefeitura, por exemplo? Você já pensou como os conceitos de “crise” e “governança” se aplicam à sua organização? Como o tema “crise” é abordado onde você trabalha? Como têm sido tratadas as “questões de governança” na instituição a que você pertence? Qual é o quadro aparente e qual é o quadro real?
A governança de uma iniciativa social é um assunto complicado e delicado, que envolve poder e responsabilidade, autoridade e coragem. Pode ser um equívoco reduzir governança a uma perspectiva funcional, restringindo-a ao papel de um conselho, de uma diretoria ou ainda de um presidente. A governança institucional é um processo, assim como liderança é um processo. Liderança é um processo complexo que envolve no mínimo dois atores: líder e liderado. Governança envolve distintos atores, com múltiplos interesses, em posições diferentes de poder e autoridade, interagindo entre si e buscando exercer influência uns sobre os outros, o tempo todo. Os beneficiários de um projeto social exercem influência sobre ele, assim como exercem os doadores – só que são influências diferentes em função dos lugares que ocupam. Qualquer iniciativa social incorpora alguma influência dos principais interessados na sua existência, com maior ou menor consciência.
É muito comum em questões de governança institucional dar-se atenção aos aspectos de conteúdo, como prioridades, objetivos e visão de mundo. Muitos diálogos de conteúdo seguem na busca de “quem tem razão”. Aspectos de conteúdo referem-se a “o quê” se discute; aspectos de processo se referem a “como” se dão as conversas. Pouca atenção pode estar sendo dada aos aspectos de processo. Quem cuida do processo de governança numa iniciativa social? Talvez o maior erro deste governo tenha sido se propor a realizar mudanças no cenário político, como resultado, mas se descuidar do processo: a sociedade esperava que não fossem usados os mesmos métodos usados por outros políticos até aqui, esperava ética.
O ambiente social ao redor de uma iniciativa é complexo: a quantidade de interações é infinita, como são dinâmicos os objetivos (e a trajetória) de cada interessado. A consciência dessa complexidade é restrita. Cuidar do processo tem a ver com como se dá a participação, a tomada de decisões e a colaboração. Em contextos complexos manter a criatividade pode ser mais importante do que definir uma visão. Desenvolver a capacidade de construir acordos saudáveis pode ser mais importante do que defender critérios técnicos para uma operação. No campo social, uma das tarefas é o saneamento dos processos, o que em si garante estar em processo de desenvolvimento.
Do ponto de vista de processo, pode-se afirmar que ao redor de uma iniciativa social sempre existe uma comunidade de interessados, composta tanto por pessoas de fora quanto de dentro (dirigentes, colaboradores e voluntários) da organização. Da maneira como se dão as interações entre estes pode depender os efeitos da intervenção desta iniciativa na sociedade e sua saúde financeira no longo prazo. Isso significa que uma fundação empresarial deve estar alerta às conseqüências de manter somente diretores da empresa no seu conselho, assim como uma instituição comunitária deve avaliar os efeitos de manter os seus programas demasiadamente dependentes do governo.
É possível que a governança de uma organização reflita a governança de um país e vice-versa. Governança institucional e desenvolvimento estão relacionados. Assim como democracia não se constrói do dia para a noite, tampouco se constrói legitimidade e mudança social. À medida que a governança das instituições evoluir é possível que evolua também a governança de um país. Em governança, um bom processo muitas vezes é um ótimo resultado.
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