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Flora e Marina, consultoras associadas do Fonte conversam sobre o Projeto de Formação Artistas do Invisível

Entrevista com Marina M. C Oliveira e Flora Lovato, consultoras associadas do IF e participantes  do Projeto Artistas do Invisível.
Por Tânia Crespo
Coordenadora de Comunicação

 


IF - Qual é a origem do Projeto? Como ele nasce?
FL - O projeto Artistas do Invisível nasce do desejo de algumas pessoas aqui do Fonte, que teve a Marina como porta-voz, de aprofundar seus conhecimentos na lida com processos de desenvolvimento. Allan Kaplan  já trabalha conosco há anos e aprendemos muito com ele nesse caminho; no entanto, pareceu-nos que estávamos chegando ao limite de nosso conhecimento e capacidade. Os processos que nos chegam hoje são muito mais complexos do que os que nos chegavam há alguns anos e, portanto, nos pareceu necessário ir além do conhecimento e capacidade que temos hoje. Então, Marina conversa com Allan Kaplan a respeito desse seu desejo de se aprofundar, de estudar. Allan e eu temos conversas na mesma direção, particularmente por  conta da responsabilidade que carrego, aqui no Fonte, por aquilo que chamamos de "aprendizagem institucional". Ser responsável por uma atividade tão central em nossa prática também me colocava em situações de limites (de meu conhecimento e capacidade) e, por isso, costumava consultar Allan com frequência, para orientar-me nos caminhos a seguir, nas reflexões, no meu aprofundamento. 
 
Durante todo o tempo em que vem nos apoiando, Allan também tem realizado outros trabalhos, junto a outras pessoas e organizações. Os seminários/oficinas  que o próprio Fonte promove com a facilitação de Allan Kaplan o leva a entrar em contato com outros profissionais, de outras organizações, e grande parte desses profissionais também manifestaram, ao longo do tempo, interesse em se aprofundar na abordagem que Allan pratica e, de alguma forma, desenvolveu (ele é um dos raros profissionais no mundo que atua na área social a partir dessa abordagem e, mais do que isso, está empenhado em desenvolvê-la e consolidá-la).
 
As conversas que Marina, eu e alguns outros vínhamos tendo com Allan o motivou a falar com esses outros profissionais, que participaram de suas oficinas e outros trabalhos no Brasil. As necessidades, desejos, vontades foram se "costurando" até que, finalmente, Marina e ele desenharam a proposta que hoje conhecemos. Tão logo ela ficou pronta, se reuniu um grupo de possíveis interessados para os quais a proposta foi apresentada e discutida. Essa reunião é, para mim, o marco do nascimento do projeto.

MM - Apresentamos uma proposta de caminho para estes profissionais e assim o projeto foi se desenhando, a partir da necessidade destas pessoas em tornarem-se mais conscientes e consistentes nas suas práticas sociais.

IF - Quais são os pilares (crenças, valores) que sustentam a sua vinda ao mundo?
MM - Esse projeto tem como intuito aprofundar um estudo e a prática na abordagem goethianística. Esta abordagem não é apenas um método, é uma forma de ver o mundo, uma maneira de se postar diante dele. Goethe dizia que somos o órgão de auto-revelação da natureza. A abordagem goethianistica tem uma qualidade de se colocar no mundo que é mais compreensiva do que julgadora, mais descritiva do que prescritiva. Ela propõe que o olhar do observador interfere nas situações, como analisado pelos autores da teoria da complexidade.
O Projeto procura ajudar a trabalhar na prática de técnicas que são muito pouco trabalhadas no Ocidente, como a prática de prestar a atenção em si, de como você olha, como você pensa quando você olha algo. Como você silencia? Você é capaz de silenciar diante de uma situação para melhor vê-la? Como você age, como você responde a cada situação?

FL - Bom, acho que as crenças do projeto são muito próximas das crenças que, no Fonte, orientam nosso trabalho como um todo: a de que todo organismo vivo qualquer passa, ao longo de sua vida, por um processo de desenvolvimento; este, portanto, acontece no tempo, só pode se dar de dentro do organismo para fora dele; pode ser facilitado mas não forçado e dificilmente pode ser planejado nos seus mínimos detalhes ... Em todo o processo, é possível identificar padrões e forças que vão moldando o organismo, dando-lhe vida, constringindo-o. Para que esse organismo possa se tornar o que ele tem/pode se tornar, é preciso que haja mudanças nos padrões e um equilíbrio das forças vivas no processo seja buscado. Essas mudanças parece que só acontecem quando as pessoas - que pertencem ao organismo - mudam. Ou seja, a mudança no organismo depende da mudança que cada um individualmente se dispõe a fazer em suas próprias vidas e nas suas relações.

IF - Qual a relação destas crenças, valores do Projeto com a consultoria de processos com o “jeito” Fonte de atuar no mundo?
FL - O trabalho do Fonte é, eminentemente, o de ajudar as pessoas e as organizações a empreenderem essas mudanças. Ajudamos a se confrontarem com suas perguntas, suas questões, suas alegrias, suas dores (as perguntas, então, nos são fundamentais) e, a partir desse confronto, a tomarem decisões, novas, e responsabilizarem-se por elas e pelos destinos que são então construídos a partir dessas decisões. É um grande processo de tomada de consciência esse que ajudamos as pessoas e as organizações a trilharem. Consciência sobre seus próprios valores e crenças, consciência sobre suas decisões, a coerência entre o que acreditam e o que fazem, a consciência sobre a relação entre elas e seus trabalhos (e os resultados desse trabalho), entre elas e o contexto em que vivemos.

MM - Esta mesma proposta já está no Programa Profissão Desenvolvimento (PROFIDES), que o IF desenvolve há 5 anos que se propõe a desenvolver a capacidade de ler e compreender as práticas sociais para que profissionais de desenvolvimento intervenham de maneira mais responsável. A proposta neste momento é de aprofundamento teórico e prático da fenomenologia goethianística. Desta maneira, é possível dizer que o projeto é um aprofundamento do PROFIDES.

IF - Podemos dizer, então, que o Artistas do Invisível é um projeto profundo?

FL - Ele é um projeto profundo justamente por conta do que se propõe a fazer. Lidar com as questões humanas. Qualquer questão humana, por mais singela que possa parecer, é profunda. Elas tratam da alma de cada ser humano e da humanidade. Brincamos em torno das perguntas "de onde que eu vim?", "quem eu sou?", "para onde que eu vou?". De tanto que as usamos em nosso trabalho cotidiano, elas nos parecem banais. Elas são, no entanto, as principais perguntas com as quais lidamos em nosso trabalho. Ajudamos as pessoas e as organizações a respondê-las cada vez mais profundamente, ou a se reconectarem com as respostas que dão/deram a essas perguntas. Trata-se do sentido da existência, da vida.

MM – O projeto exige a grande disposição individual para trabalhar a sua prática – e o desenvolvimento é um “sem fim”. Trabalhar para dentro é sem fim. A gente trabalha a prática de prestar a atenção, de agir com atenção. E estes são processos profundos.

IF - Qual o perfil dos participantes do projeto?
FL - O perfil é o da pessoa que se sentiu motivada, instigada, desejosa de, no mínimo, conhecer melhor esse tipo de abordagem e suas possibilidades. Acho que no mais há algumas características implícitas: são todas pessoas que trabalham na esfera social, todas preocupadas com o que estão conseguindo de mudança nas pessoas e organizações com as quais trabalham, interessadas em aprofundar/melhorar suas práticas.

MM
- Profissionais de desenvolvimento são pessoas que atuam preocupadas com o desenvolvimento de indivíduos e organizações das comunidades em que atuam. São também pessoas experientes e que se dedicam a estudar o seu próprio desenvolvimento. Estão em contínuo aprendizado, trabalhando no próprio desenvolvimento. Desejam compartilhar as suas práticas e avaliar as práticas com outros, com seus semelhantes. Os participantes são pessoas que já praticam esta abordagem goethianístca e quase todos já fizeram uma ou mais formações com o IF ou com o Allan Kaplan. E agora querem empreender um processo de formação mais longo e profundo.

IF - Há previsão de continuidade?
FL - Acho que é preciso, primeiro, começar. Dar este passo. Pode ser que haja continuidade, mas dar este primeiro passo é fundamental.

MM – Esta é uma iniciativa pioneira no Brasil embora iniciativas semelhantes aconteçam na África e na Europa conduzidas pelo Allan Kaplan. Eu tenho a expectativa de que ao longo dos três anos surjam várias iniciativas – em decorrência ao projeto – porque os profissionais que participam deste grupo, em grande parte, lideram programas de formação na área de desenvolvimento. Vislumbro que esta experiência pode ser catalisadora de novos projetos. Não podemos dizer se outra edição irá acontecer. Como disse Flora, vamos vivê-la primeiro.