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Paula Schommer e Jeová Torres Jr. falam sobre ensino e pesquisa em Gestão Social

Como a Academia tem articulado e disseminado experiências e conceitos relacionados à Gestão Social? O que as experiências de ensino estão apontando para o futuro? Para responder estas e outras questões, o Direto do Fonte esteve no III ENAPEGS realizado em Petrolina/PE e Juazeiro/BA e entrevistou Paula Schommer e Jeová Torres Jr, membros da Rede de Pesquisadores em Gestão Social (RPGS).

Por Tânia Crespo
Coordenadora de Comunicação do Instituto Fonte
 


IF - Por meio de quais princípios os cursos nas Universidades e instituições educativas podem contribuir para a formação de gestores sociais?
Paula Schommer
-  Para mim, é uma questão extremamente séria: como a gente consegue incorporar na gestão dos próprios programas nas universidades, princípios que consideramos importantes na gestão social, como o diálogo, a valorização de outros saberes, das decisões colegiadas?
A maioria das Instituições de Ensino tem essa intenção, mas tenho impressão que estamos pouco acostumados, na nossa prática enquanto acadêmicos - professores ou gestores - a realmente praticar gestão social.


IF – E quais avanços estão sendo alcançados no cotidiano dos programas de formação em gestão social?
Paula Schommer
- Uma das inovações que a gente conseguiu realmente implementar na UFBA, por exemplo, foi sustentar duplas de professores em sala de aula, de correntes e abordagens diferentes, muitas vezes de opiniões distintas sobre o tema. A experiência foi riquíssima, demos um grande passo.
Para sustentar uma mudança aparentemente simples como essa no cotidiano das práticas acadêmicas é preciso ter muita vontade de fazer as coisas acontecerem, porque os professores estão acostumados a planejar suas aulas sozinhos, a partir do seu repertório e avaliar do mesmo modo que sempre avaliaram. Vários professores dizem “na minha disciplina vou fazer isso, vou fazer aquilo”, elaboram ideias fabulosas. Mas na hora de implantar...
Todos declaram a intenção de inovar, mas poucos professores conseguem efetivamente sair do quadrado, da “caixinha” mais tradicional. Não chega a ser intencional, não percebemos que na hora de executar, tendemos a ir para o conhecido. Isso é uma coisa tão arraigada que a gente nem percebe. E é uma posição, de certa forma, confortável. Por outro lado, percebo que os alunos também têm certa resistência quando a gente propõe algo novo.
Por exemplo, planejamos algumas aulas fora da Universidade, no Mestrado. Pensamos em fazer as aulas nas instituições dos alunos, já que muitos vinham de diferentes organizações. Mas a resistência foi imensa, mesmo com questões do tipo:  “Como chego lá?”, “Lá não tem estacionamento” ou “A acústica lá não é boa”. É preciso um esforço imenso para superar esse tipo de resistência.
Outra coisa é que para promover espaços de troca em outros lugares que não na própria Universidade, você tem que financiar. No mínimo você tem que pagar transporte. E são poucas Universidades que viabilizam recursos.

IF – Além dessas resistências, quais outros desafios você observa na sua prática como docente?
Paula Schommer
- Outro desafio é saber como aproveitar as práticas dos alunos na concepção dos cursos e das disciplinas. A gente ainda tem que desenvolver metodologias que aproveitem melhor as práticas dos alunos.
No mestrado profissional, isso está presente, também, na natureza da dissertação do curso: o meio acadêmico tem um modelo lógico de como precisa ser elaborada uma tese. Propusemos no mestrado profissional que a dissertação fosse orientada a uma prática, à intervenção ou à análise de um produto ou processo concreto, ou avaliação de uma política, e que fosse algo próximo do contexto de atuação do mestrando. É difícil isso, por várias razões. Uma delas é porque os professores não têm experiência de orientação nesse tipo de trabalho e pesquisa, não sabem exatamente como fazer. Novamente, o mais confortável é o conhecido e tendemos a optar por ele.
A Universidade é uma instituição muito tradicional, todos estes aspectos que mencionei estão muito enraizados, até em detalhes, como os critérios de julgamento do trabalho ou a composição da banca, que tem que ser composta por no mínimo três doutores. Começamos a convidar mais um profissional para compor a banca, que chamamos de “convidado da prática”, que não precisa ter um título acadêmico, só precisa ter experiência na área pesquisada. Isso foi uma inovação, mas ainda é uma ação pequena.


IF – Ainda por este caminho, como a academia tem articulado o conhecimento (teórico e prático) acumulado em gestão social?
Paula Schommer
- Eu acho que há experiências muito interessantes, mas tem alguns limites. Mesmo aqui no ENAPEGS, nos perguntamos: “Onde estão as ONG? Onde estão os governos?”. A linguagem acadêmica ainda é hermética, uma linguagem de acadêmicos para acadêmicos, que não seduz em geral, os praticantes. Estamos repensando os critérios de seleção dos artigos, que mesmo no ENAPEGS, são critérios acadêmicos. A gente tem que abrir oportunidade para outros formatos e linguagens.
Isso não acontece só no campo da gestão social. Na administração empresarial, debate-se há muito tempo o fato que muitas produções na área da administração não são aproveitadas pelos gestores empresariais. Na maioria das vezes, estes participam pouco das nossas discussões. Imagino que isso valha aos para os governos. 


IF – Então, como potencializar a troca de saberes entre atores envolvidos em Gestão Social?
Paula Schommer
- A troca de saberes acontece na medida em que mestrando, por exemplo, vai ser um gestor governamental ou de uma organização da sociedade civil. Na Universidade ele entra em contato com teorias, com outras práticas, com outras realidades e isso amplia seu repertório e sua capacidade de análise sobre a sua própria experiência. Durante o percurso, ele vai transformando a visão sobre a própria realidade e esse é um processo super intenso para alguns. Muitos inclusive abandonam seus trabalhos porque começam a se questionar.
Quer dizer, esse aluno/profissional vai alterando os espaços de trabalho. Eu acredito que essa troca vai acontecer porque esse profissional se transformou bastante, e vai influenciar outros contextos.  Por outro lado, os acadêmicos vão permanecer na Universidade. Eu acho que aí entram os espaços de projetos de extensão, os projetos de pesquisa que se dão num contexto mais de solução de problemas concretos em que aluno e professor se envolvem um pouco mais com projeto de pesquisa, e têm oportunidade de intercambiar na prática com outras pessoas.
 

IF - Como na residência social?
Paula Shommer
- Exatamente. Na residência social, o aluno leva consigo, ou encontra no próprio contexto, um problema ou questão X, que pode ser um problema teórico ou concreto. Vai para um campo Y de prática, que não é o seu original, mergulha naquele contexto e precisa interagir com outras pessoas em torno de uma prática. Ele não é só observador, a ideia é que aluno observe, participe, opine. Porém, existem muitos limites porque, em geral, o tempo é menor do que se pode desejar para que essa interação seja mais profunda.
Além disso, continuamos com o limite da linguagem, do idioma, quando o aluno faz a residência em outro país, ou o limite de linguagem entre alunos e comunidades. E a Universidade está muito queimada em determinados contextos, principalmente pela
imagem de quem pesquisa e não faz nenhuma devolutiva depois, ou de uma visão que a gente é muito elitista.


IF – Como favorecer, então, meios quem promovam a aprendizagem de todos (gestores, alunos, docentes, comunidade)?
Paula Schommer
- Eu acho que a aprendizagem mais intensa se dá quando pessoas de diferentes contextos de dentro e de fora da Universidade têm a chance de trabalhar juntas em algum projeto, ação, ou pesquisa, porque assim, realmente, elas têm que compartilhar repertórios, conhecimentos, na prática. A residência social também é uma chance de articulação inter ou multidisciplinar. O que também acontece, por exemplo, quando dois professores compartilham a disciplina, quando precisam sentar juntos para planejar.


IF – Então, estes aspectos falam de um programa ideal?
Paula Schommer
- Eu fico imaginado que o ideal, na concepção de um programa, é que fosse ampliada a possibilidade de construção conjunta entre diferentes repertórios, diferentes experiências, em vários níveis. Um curso ideal para mim é aquele que tem mais troca entre os próprios estudantes sobre as suas experiências, em que eles discutam metodologia, autores, conceitos, formas de avaliação compartilhada... Além disso, o melhor dos mundos é quando o professor tem um projeto de pesquisa e ele consegue integrar os estudantes nesse projeto. Ou quando o estudante, que é um gestor do governo, por exemplo, consegue convidar um professor para participar de um projeto e eles interagem na prática. Isso é ótimo e é incentivado no campo dos mestrados profissionais. Desta forma, o conhecimento teórico torna-se mais tangível, mais contextualizado.


Jeová Torres Silva Jr


IF – Na sua opinião, sobre quais metodologias os cursos acadêmicos estão embasando a formação de gestores sociais?
Jeová Torres Silva Jr - Não dá para pensar em uma formação em gestão social, seja na extensão, na graduação ou na pós-graduação se utilizarmos a mesma didática das lógicas apresentadas pela formação em Administração de Empresas. Estamos passando por uma excelente oportunidade de constituição de cursos de graduação em Gestão Pública e Gestão Social, e me parece, inclusive, que a maioria das instituições que estão hoje implantando esses cursos são Federais.
Só é possível pensar em cursos que formam efetivamente em gestão pública social, se existirem certos diferenciais metodológicos no curso. Dentro em breve as organizações privadas e mesmo as públicas vão se interessar em abrir novos cursos em gestão social e analisarão, também, como o curso deverá ser gerenciado. E o que a gente quer é tirar a palavra social da gestão. Isso porque qualquer gestão é social por natureza. O objetivo da Administração é organização e não gestão. Gestão é uma das invenções dentro da organização. É o motor que faz a organização funcionar. E assim, teremos a gestão social presente em qualquer tipo de organização: privada, pública, da sociedade civil.

IF – E quem está levantando esta bandeira na Universidade?
Jeová Torres Silva Jr – Formamos um grupo de pesquisadores em gestão social que está crescendo aos poucos. É necessário tempo para poder construir diálogos e ações conjuntas. Precisamos que as pessoas participem de encontros como este (ENAPEGS ), que muita gente venha aqui para ver o que está acontecendo no campo, para se inspirar e participar. Eu tenho certeza de que isso que está acontecendo aqui é um marco. Por esse motivo, acredito que possam ser construídas formas de gestão diferentes, mesmo reconhecendo que essa construção acontecerá em longo prazo. Eu queria só dizer um negócio que é o seguinte: vocês não percebem algo diferente nas pessoas que estão aqui? As pessoas se abraçam, conversam. Não existe vaidade. Você encontra com um pesquisador que tem anos de história e ele chega, abraça todo mundo, conversa com todos. Eu imaginava que teria uma dificuldade enorme em me relacionar com esses caras, e de repente, não é isso que acontece. Mas eu vou te afirmar: o mundo da Universidade não é assim. O ego é um negócio que define muitas vezes os rumos de uma ação dentro da Universidade. Você elabora projetos e o professor simplesmente não quer que aquela linha de raciocínio se valorize.
Mas, aos poucos estamos conseguindo ampliar a visão sobre a Administração e a Gestão. Temos cursos no Ceará, Rio Grande do Norte, Bahia, São Paulo, Santa Catarina, Alagoas, Sergipe, na Universidade Estácio Sá, na FGV do Rio de Janeiro. E como foi que isso aconteceu? Por que estamos fazendo a coisa juntos, porque hoje reconhecemos o que fazemos e pesquisamos. E a gente está trocando o tempo inteiro. É isso.


Conheça a Rede de Pesquisadores em Gestão Social: http://www.rgs.wiki.br/index.php

Paula Schommer é doutora em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas – SP, Mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia e Graduada em Administração de Empresas pela Universidade de Caxias do Sul. Atualmente é professora adjunta da Universidade do Estado de Santa Catarina. E-mail: paulacs3@gmail.com.

Jeová Torres Silva Jr. é graduado em Administração pela Universidade Estadual do Ceará e concluiu o Mestrado em Administração (ênfase em Gestão Social) na Universidade Federal da Bahia. Atualmente é Professor Efetivo e Coordenador do Curso de Administração da Universidade Federal do Ceará - Campus Cariri. Coordena o grupo de pesquisa Laboratório Interdisciplinar de Estudos em Gestão Social - LIEGS/UFC.