Entrevista - Denise Castro, presidente da Fundação Mamíferos Aquáticos sobre Sustentabilidade e Gestão Ambiental.
Denise Castro, ex-participante do Programa Profissão Desenvolvimento e presidente da Fundação Mamíferos Aquáticos fala sobre como a sustentabilidade, gestão ambiental e redes.
IF - O conceito sustentabilidade é bastante heterogêneo e parece estar quase esvaziado. Quais são os pressupostos da Fundação Mamíferos Aquáticos acerca deste conceito? Como ele se apresenta nas ações (projetos) da FMA?
DC - A Fundação Mamíferos Aquáticos surge da necessidade de conservar o Peixe-Boi Marinho, um mamífero aquático criticamente ameaçado de extinção. A estratégica lançada, a partir deste objetivo detém o olhar da sustentabilidade. Como se trata de um projeto de conservação de espécie com alto grau de ameaça de extinção, precisávamos compreender esta espécie de uma maneira ampla envolvendo aspectos relacionados diretamente na avaliação do status de conservação.
Desta forma, a geração de informações básicas como distribuição geográfica, estimativas populacionais, avaliação de habitat e proibição de caça compõem as metas prioritárias para a definição do status de conservação do peixe-boi marinho no Brasil, informações estas inexistentes até o inicio da década de 80. Foram incorporadas, na estrutura do Projeto, metas conservacionistas baseadas nas informações geradas.
A sustentabilidade para nós parte do principio de que ao preservar os mamíferos aquáticos, atuando diretamente na conservação dos diversos ecossistemas por eles ocupados, estamos contribuindo para o equilíbrio do ambiental.
E a sustentabilidade do Projeto é construída através de um esforço conjunto da Fundação com o Governo Federal através do Centro Nacional de Pesquisa, Conservação e Manejo de Mamíferos Aquáticos (Centro Mamíferos Aquáticos/ICMBio). Esta inter-relação da gestão público/privada é validada através de instrumentos que permitem legislar sobre a questão.
IF - A partir desta perspectiva, como devemos entender Gestão Ambiental?
DC - Além da parceria com o Governo, temos a participação importante do setor empresarial nas nossas ações e acredito que a Gestão Ambiental é fundamental. Até internamente, questionamos e avaliamos o quanto ainda somos desleixados com as pequenas ações, que ainda não fazem parte da nossa cultura. Em uma reunião recente notamos o quanto desperdiçamos e consumimos material plástico...
Na edição em que participei do PROFIDES, só duas profissionais eram da área socioambiental. Foi muito interessante lidar com as pessoas que atuam no Campo Social e notar como a Gestão Ambiental é distante até mesmo para as Organizações da Sociedade Civil. Vejo o quanto isso tem que ser trabalhado. É inconcebível gerir uma instituição pública ou privada, sem pensar na questão ambiental.
Hoje, a Fundação Mamíferos Aquáticos tem o patrocínio da Petrobras - uma parceria que iniciou em 1997 - e que ao longo do tempo tem aprimorado o seu foco. Nossa causa não está apenas ligada à área de comunicação da Petrobras, na divulgação da imagem dos Projetos. Nos últimos anos este olhar da empresa tem mudado. Tanto que temos agora o estabelecimento de um contrato trianual com a expectativa de renovação para mais dez anos, integrado com outros 4 projetos ambientais financiados pela Petrobras que atuam na costa brasileira e são pioneiros na conservação de espécies marinhas (Projeto Tamar, Projeto Baleia Jubarte, Projeto Golfinho Rotador e Projeto Baleia Franca). Até então, cada um estava trabalhando com seus objetivos, em linhas tão diversificadas (informação, políticas públicas, pesquisa, educação ambiental, geração de emprego e renda). Estamos criando a oportunidade de desenvolver resultados mais consistentes na formação de políticas brasileiras. Ao agregar informações e conteúdos científicos de cada instituição, a gente cria um diferencial de atuação na área marinha no Brasil. Se for pensar em termos mundiais, o ambiente marinho ainda é pouco conhecido. Desta forma, envolver os cinco projetos, uma empresa privada e Governo criam-se oportunidades bastante interessantes e inovadoras de Gestão Ambiental. Esta iniciativa está sendo uma novidade para a empresa também, ao alcançar um olhar mais abrangente para a causa, transferindo a preocupação sobre a sua imagem para os resultados dos projetos que ela está apoiando.
Hoje, as pessoas possuem informações, que já é um passo importante, mas ainda não estão conscientes, de fato. E este momento de crise chega como uma imposição para se ter consciência. Se os setores produtivos não atentarem para isso, a sustentabilidade estará comprometida – e é muito importante que ela [sustentabilidade] esteja pautada na mudança de padrão de consumo e no controle populacional. Qualquer outra ação é paliativa. A mudança de comportamento deve começar dentro das organizações. Se elas não tiverem a real compreensão da finitude dos recursos, teremos um cenário ainda mais complexo para ser trabalhado, porque estamos no final da cadeia produtiva. Além disso, a gestão ambiental não pode se restringir às empresas e às organizações da sociedade civil. Tem que ser levada para as escolas, para o aprendizado da sociedade.
IF - Como você identifica as diferenças, semelhanças e complementaridades entre a sustentabilidade do planeta e a das Organizações da Sociedade Civil?
DC - Ambas passam pelo processo de aprendizagem. Atravessamos um cenário de muito idealismo em que o ímpeto pelo crescimento e a necessidade de se estruturar contribuiu na construção de um público mais consistente, mais questionador. Não podemos perder de vista a qualidade do resultado para não perder a construção de uma sociedade civil atuante, politizada e estruturada. Existe esta pressão e é preciso estar preparado para isso. Para tanto, o processo de aprendizado é vital nesse mundo que está surgindo.
IF - Ainda entende-se meio ambiente enquanto apenas natureza; sendo considerada ora sagrada e intocável ora como um depósito a se dispor, e, portanto, cabível de exploração desenfreada. Como a educação ambiental da FMA trabalha com isso?
DC - Nós sempre trabalhamos com a questão da informação, mais do que com a educação ambiental em si. O Projeto Peixe-Boi visitou todas as comunidades nos 4 mil quilômetros da costa norte-nordeste do Brasil para levantar o status de conservação e levar a informação sobre a proibição da caça. Atualmente, as nossas ações de informação ambiental consistem em comunicação e colaboração direta com as comunidades, através de campanhas específicas e temáticas ao longo do litoral e o atendimento no centro de visitantes do Projeto Peixe-Boi.
IF - Além deste trabalho informativo, qual tem sido a contribuição do Projeto Peixe-Boi para conservação da espécie?
DC - Até 1993 não existia nenhuma unidade de conservação em prol do peixe-boi marinho. Nossa ação, juntamente com o Centro Mamíferos Aquáticos/ICMBio e demais parceiros, possibilitou a criação da Área de Proteção Ambiental (APA) da Barra de Mamanguape na Paraíba, a APA Costa dos Corais no norte de Alagoas e no sul de Pernambuco, outro importante ecossistema, a APA do Delta do Parnaíba, entre outras áreas no litoral norte-nordeste.
Criamos, também, algumas normativas em ações conjugadas com o Centro Mamíferos Aquáticos. E juntamente a outros Projetos que atuam na preservação de espécies marinhas, o Brasil possui hoje uma política de conservação marinha que é referencia mundial.
Nos últimos anos o encalhe de peixes-bois tem aumentado e o grande desafio do Projeto é garantir a conservação do habitat para que a espécie consiga seguir o ciclo biológico. O peixe-boi sofre diretamente os efeitos da erosão, poluição de seu habitat, intenso tráfego marítimo, ocupação imobiliária desordenada do litoral. O filhote é extremamente dependente da mãe – para se alimentar ele precisa estar junto a ela, que o ensina também a respeitar. Hoje as mães não encontram águas tranqüilas, lugares ideais para parir. Ao nascer, o filhote não consegue ficar com a mãe e é lançado pelo movimento das ondas para a beira da praia. Nesses casos, levamos o filhote para reabilitação em cativeiro, para depois de alguns anos voltarem ao seu ambiente natural. Com base no conhecimento adquirido o Projeto vem tentando fazer com que estes filhotes sejam recolocados, imediatamente após o encalhe, ao mar e mantenham-se com a sua mãe. No último encalhe ocorrido em dezembro obtivemos sucesso nesta iniciativa.
A FMA, juntamente com o Centro Mamíferos Aquáticos/ICMBio, tornou uma espécie conhecida para um público maior, divulgou a proibição da caça para sobrevivência, gerou pesquisas, oportunidades de emprego e renda. Há dois anos o projeto abriu a oportunidade de visitação aos peixes-bois reintroduzido e monitorados em seu ambiente natural. Até alguns anos atrás, quando um animal encalhava as comunidades o consumiam. Hoje há um empenho em ajudar na sobrevivência da espécie. Temos um relato de uma comunidade do Ceará que resgatou o peixe-boi, juntou as mães que estavam amamentando e o alimentaram. Este é um indicador de sucesso do nosso trabalho com as comunidades.
Até o momento o Projeto já manejou 57 espécimes de peixes-bois. Se considerarmos que trabalhamos com uma população estimada em no máximo 500 e no mínimo 217 indivíduos, isto representa cerca de 10 a 25% da população. Um importante passo agora a ser dado é o desenvolvimento do Plano de Ação para a conservação da espécie. O Projeto Peixe-Boi é muito amplo – daria para criar uma ONG para a maioria das ações por ele executadas!
No momento o desafio da Fundação é ampliar a sua área de atuação garantindo a qualidade do Projeto Peixe-Boi– afinal temos 50 espécies de mamíferos marinhos presentes em águas brasileiras nas quais, segundo o Plano de Ação para Mamíferos Aquáticos do Brasil, mais de 70% apresentam dados insuficientes para classificação de seu grau de ameaça. Atualmente muitas organizações estão trabalhando com espécies marinhas, gerando pesquisas, ações de manejo e conservação, mas o cenário político ainda carece da participação da sociedade civil organizada.
IF - Conte um pouco sobre os ganhos e desafios da Rede de Encalhes de Mamíferos Aquáticos do Nordeste (Remane).
DC - A Remane é uma experiência piloto, criada em 2000 por ONGs, universidades e unidades do Instituto Chico Mendes de Biodiversidade. A rede já propiciou como resultado a articulação de uma rede similar na região Sul (Remasul) e produziu o primeiro protocolo de conduta para encalhes de mamíferos aquáticos. Na Remane estamos conseguindo criar um banco de dados, com a participação da UNIVALE, integrando e disponibilizando informações científicas para o grande público e isso possibilita a elaboração de uma política mais coesa. Na rede do Nordeste, que é formada por organizações muitos jovens, temos ainda grandes desafios na coleta e divulgação dos dados. Mas se considerarmos que até pouco tempo o material biológico ia parar no lixão, que as informações quando coletadas eram tratadas individualmente pelas instituições ocorrendo uma baixa socialização do conhecimento, considero a Remane como uma da grande conquista para o Brasil.
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