É possível avaliar para aprender?
por Rogério Silva
diretor executivo do Instituto Fonte
Caros leitores,
O ano de 2007 lançou o Instituto Fonte em um amplo território de pensamentos e práticas de avaliação de programas sociais. Por onde andamos, nos marcou o desejo que tem fomentado a avaliação no campo social, assim como a efervescente procura por avaliações vivas, dotadas de sentido e relevância para os diferentes sujeitos das ações sociais. Você também se reconhece nessa busca?
Enquanto continuamos a sustentar a idéia de avaliar é a arte de fazer boas perguntas, revigorando seu fôlego a cada processo em que nos engajamos, fomos apresentados a reflexões e demandas que nos ajudaram a produzir conhecimento e a tentar romper tradições. Cada passo neste território provocou os sujeitos com os quais trabalhamos a tomar as avaliações como suas, e reinventá-las.
Como nunca, experimentamos o imperativo dos contextos políticos e organizacionais sobre os processos de avaliação. Para encontrar seu lugar nas organizações e nutrir processos de aprendizagem, a cintura-dura dos modelos laboratoriais diluiu-se nas possibilidades do cotidiano, nas molduras políticas, econômicas e éticas de cada organização. Quanto mais explorávamos a pergunta “em que contexto se inscreve esta avaliação?”, mais humanizadas se tornavam as práticas e mais possíveis os processos.
Com os pés nos chão, as dinâmicas do poder nas organizações foram pauta permanente nos processos de avaliação. Enquanto o hegemônico tratava a avaliação como questão de controle, remetendo aos centros do poder a possibilidade utilitarista de decidir sozinho, sustentávamos processos em que centro e periferia construíam juntos os sentidos da avaliação. Se não há desejos, interesses e perguntas reais, que descoberta é possível? Que aprendizagem se produz?
Ao reunir sujeitos e construir na diferença, produzimos métodos mestiços, onde discursos e números se abraçaram eroticamente. O campo social e seus conteúdos – do cumprimento de medidas sócio-educativas à sustentabilidade organizacional, da inclusão digital ao combate ao desmatamento na Amazônia – fizeram com que riscos interessantíssimos fossem corridos: jovens em conflito com a lei tornaram-se jovens pesquisadores. Relatórios viscerais (reflexivos) tornaram-se públicos e inspiraram as pessoas a olhar aquilo que não se diz. Gerentes estrangeiros deixaram a Europa para mergulhar em plenárias avaliatórias no coração da Amazônia. Vale o desafio?
Para construir avaliações úteis e implicadas nos processos de desenvolvimento dos grupos sociais, foi necessário construir uma noção de uso da avaliação para além da produção de relatórios finais e de plásticas reuniões de devolutiva. Partimos do pressuposto de que só se devolve aquilo que se tira. E, afinal, o que as avaliações andam tirando das pessoas e das organizações? Em nossa prática, tentamos produzir uso no cotidiano, em que descobertas foram problematizadas no corpo-a-corpo e, aos relatórios finais, coube o lugar de registro e síntese – foram coadjuvantes e não estrelas da aprendizagem.
No papel de educadores, a trajetória neste período nos fez apostar na construção de uma gramática avaliatória e de radicalizar na singularidade da relação entre sujeitos e avaliação. Apoiados na crença de que a formação em avaliação é artesanal e implica no envolvimento autoral, criativo e experimental dos sujeitos, procuramos encorajá-los a colocar a avaliação nas ruas e a aprender correndo os inevitáveis riscos da prática. É possível aprender avaliação sem correr riscos?
Mobilizados por estas experiências e convidados a revisar modelos e fabricar processos significativos e relevantes no campo social, mergulhamos em uma avaliação que tentou e tenta moldar-se à política e à ciência da nossa época. Neste campo saudavelmente movediço, colocamos conceitos em disputa, produzimos incertezas, inventamos e erramos, tudo para viver belas experiências.
Entre elas, trazemos para este Direto do Fonte o pujante debate entre avaliação e aprendizagem. Jamais esquecido no campo social, parece que a questão vive período de certa negligência entre muitos de nós: avaliação-aprendizagem, avaliação x aprendizagem, avaliação e aprendizagem? É possível avaliar para aprender? O que se aprende avaliando? Você e sua organização têm pensado nisso?
Para discutir a questão e fomentar discussões que contribuam com a produção de conhecimento no campo social, apresentamos aqui o olhar de Daniel Brandão. Em entrevista, nosso associado e mestre em educação pela PUC/SP fala de suas experiências, seus dilemas e suas construções recentes no campo, em certa medida reunidas em sua dissertação Avaliação com Intencionalidade de Aprendizagem.
Em prosa de boa qualidade, Daniel discute conceitos, autores e experiências significativas nas quais avaliação e aprendizagem formam um binômio inseparável. Outro complemento importante é o artigo Avaliação Educadora, produzido recentemente para publicação do Ministério do Meio Ambiente, o artigo propõe em primeira mão um olhar para a Roda da Avaliação Educadora. Coisa Possível?
O Direto do Fonte traz também a primeira versão do Calendário Fonte 2008. Os programas, publicações e eventos são movimentos em busca de ampliar a interlocução e contribuir para a construção do campo do desenvolvimento no Brasil. Porque queremos apoio, investimentos e parcerias nessa jornada, a intenção é oferecer a você e sua organização a possibilidade de planejar sua relação e sua presença nos espaços de formação e debate que empreenderemos em 2008. Quer nos ajudar?
Esperamos que os conteúdos deste boletim lhe façam sentido e lhe sirvam de material de estudo e reflexão organizacional. E esperamos que ele também lhe sirva de convite. Avaliação pode ser aprendizagem? Podemos aprender juntos? Fale conosco e boa leitura.
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