Consultoria: Onde a técnica se torna Arte?
E qual seria o papel de cada um de nós nesta relação ‘de ajuda’? Se o trabalho do cliente está expresso na frase ‘desenvolver, em si, habilidades de percepção mais acuradas sobre suas questões’, qual seria o trabalho do consultor então? Nosso trabalho é ‘ambiental’, trabalhamos intensamente na ‘periferia do processo’ criando condições para o trabalho central acontecer: o trabalho do cliente, de sua equipe, de sua organização.
Por Tião Guerra, consultor associado do Fonte
Sendo consultor associado do Fonte e tendo como ofício o apoio a processos de desenvolvimento, carrego comigo esta pergunta: onde as técnicas, o método de intervenção com um cliente se torna arte? Os clientes nos apresentam questões com as quais vivem, se angustiam, se inspiram, e com as quais querem, em diferentes graus, lidar. Estas questões chegam focadas em algum tema, em algum âmbito da vida da pessoa ou da organização e que está causando incômodo ou sobre o qual há desejo de aprofundamento, dinamização. Este é um ponto de partida e a partir dele abrimos ou fechamos o foco sobre um ou outro aspecto, desenvolvendo novos pontos de vista, complementares.
É como se fosse necessário, como diz Cecília Meireles, “criar novos olhos para ver”. Ampliar esta percepção da questão trazida inicialmente, incluir-se nesta percepção, olhar para si e para a organização como partes de um mesmo todo, que por sua vez participa de um todo maior com o mundo, com seu contexto.Tudo isto será fruto de forte e disciplinado trabalho do cliente, do consultor e entre ambos, em sua relação.
Para ‘estes novos olhos’ não há caminho senão pelos ‘velhos’ olhos. Para as novas questões não há outro caminho que não começar pelas velhas. É preciso trabalhar com as habilidades já desenvolvidas de percepção, pois passamos nossa vida inteira construindo órgãos de percepção do mundo, construindo nossa forma de ver, nossa visão de mundo. É daí que vamos partir para nossa jornada. Aos poucos, como fruto deste intenso trabalho sobre si e suas questões, vai sendo construída, e ao mesmo tempo nos sendo presenteada, esta nova visão, este novo sentido.
Iniciamos tocando levemente as questões, ou os problemas, que reconhecemos inicialmente: Onde as perguntas que trago estão ancoradas? Qual o contexto delas? Qual a sua história? Que sucessão de fatos nos levaram até ela? Como se relaciona com nossas histórias pessoais? A forma pela qual nos relacionamos, nos organizamos institucionalmente, influenciam esta questão? Todas estas questões iniciais, nos levam a ‘honrar’ os fatos, a percepção da experiência vivida como matéria prima de todo o caminho de consultoria.
Mas o que poderíamos dizer sobre os fatos? Em nosso trabalho como consultores, consideramos que os fatos são o rastro das forças que se moveram em nós e entre nós, a partir de uma determinada questão, de uma escolha feita e, consequentemente, estas escolhas geram novas questões e necessidade de novas escolhas.
Um desafio grande que aí se coloca é perceber o movimento, passar do slide ao cinema. Como suportar estas muitas situações em que temos perguntas, questões prementes e, então chegar às respostas? Na maioria das vezes, as respostas estão fragmentadas em mil slides, entre os quais temos dificuldade em fazer a relação entre elas nascer. Os slides com as pessoas estão ali, os slides com os sentimentos estão aqui. Os que revelam dúvidas também existem, os que mostram nossos sonhos estão neste cantinho da mesa, mas não conseguimos fazer relação entre eles. Como desenvolver em nós e nos clientes estes ‘órgãos’ de percepção do que se move entre os slides e de compreensão e aceitação do ainda não foi revelado?
Olhar para os fatos, considerá-los calma e intensamente, perscrutar suas raízes, saborear suas questões, compreender seus movimentos subjacentes, sua dinâmica íntima e extrair daí maior consciência é o centro de nossa atividade.
Num processo de consultoria do Fonte (ou qualquer outra instituição), somos contratados pelo cliente, que tem expectativas de retorno de seu investimento. Isto é algo posto. No caso do Fonte, neste processo de contratação profissional e de expectativas de, como cliente, receber o produto contratado, ocorre um dilema muito interessante: a nossa crença, a nossa prática declara que o desenvolvimento destas habilidades (órgãos) de percepção mais acurados, mais complexos e que poderão trazer posturas, visões e soluções surpreendentes para uma questão, é responsabilidade individual, ou seja, a postura de ‘cliente paciente’ trai nossa metodologia. Atividade interior em nossos clientes é ingrediente fundamental para nosso sucesso, para o sucesso dos processos e para o sucesso do mundo em si. O dilema posto, expresso de forma jocosa seria: o cliente nos contrata e é ele quem trabalha. Nunca trabalhamos sozinhos, não oferecemos soluções (receitas) prontas. Isso faz parte do nosso compromisso ético-político, do que sustenta nossa presença no mundo.
E qual seria o papel de cada um de nós nesta relação ‘de ajuda’? Se o trabalho do cliente está expresso na frase ‘desenvolver, em si, habilidades de percepção mais acuradas sobre suas questões’. Qual seria o trabalho do consultor então? Nosso trabalho é ‘ambiental’, trabalhamos intensamente na ‘periferia do processo’ criando condições para o trabalho central acontecer: o trabalho do cliente, de sua equipe, de sua organização. Não é nem de longe menor o que chamo de periferia do processo. A prática do consultor é tão ou mais intensa que a do cliente. Ao consultor cabe guardar a consciência da visão entre o de fora e de dentro; entre os indivíduos e os grupos; os conteúdos e os processos em curso; entre o lastro do passado e o convite do futuro. Ele cria condições favoráveis para o cliente mover-se o mais seguro possível, mesmo nos momentos mais abissais, mais complexos...Um suadouro!
A delicadeza essencial aqui é gerir a diversidade de tempos de descoberta entre consultor e cliente. Estão ambos ativos? Alguém adormeceu ou recrudesceu? Quem descobre algo primeiro faz o quê? E se for o consultor a descobrir primeiro? O consultor tem muitos poderes, é verdade. Pode tripudiar sobre o cliente, é verdade. O cliente também tem poderes... Nada melhor que explicitar na partida como nos propomos a exercê-lo. No meu caso, no caso do Fonte, tenho (temos) trabalhado fortemente para assumir nosso poder com responsabilidade e humildade. Humildade significa ter o tamanho adequado àquela situação, ter o ‘tamanho correto’. Entre as inúmeras possibilidades de um consultor exercer poder numa consultoria, quero destacar uma que se relaciona com este binômio responsabilidade e humildade. Não é fácil falar dela, pois é bastante ambígua: trata-se de ser exemplo. Me parece que a maior possibilidade de um consultor ‘servir’ ao cliente é sendo ele o exemplo do que prega. Não exemplo de solução estática, resolvida. Aqui trata-se muito mais de ser exemplo de buscar, de movimento, de ir em direção a. O cliente nos chama em situações especiais; nem boas nem ruins, ele simplesmente necessita de algo. Tudo o que ele menos precisa é de alguém fora de si, esborrifando sabedoria, ditando ou sugerindo mil saídas. Constituir-se em companhia serena e firme, exemplar e silenciosa, eis uma bela tarefa para nós consultores. Busco isso cada dia, mas não é nada fácil. Clientes e consultores devem ser fonte de inspiração um para o outro; as dificuldades dos momentos mais árduos e que ocorrerão sempre mais e mais fortes, devem ser alentadas com o lastro da confiança. E confiança real só vem da percepção do outro como exemplo, exemplo de busca, exemplo de interesse.
A partir das relações entre as pessoas envolvidas na consultoria e das relações feitas entre os elementos que pareciam isolados, alguns sinais começam a emergir e a dar sinais de que podemos estar num caminho ‘interessante’ para o processo. Sucede que as pessoas começam a estruturar e expressar uma nova fala sobre a prática de sua organização; uma fala que dá notícias de um organismo vivo, cheio de interconexões, que reconhece fios históricos para vários fenômenos atuais, que projeta visões futuras, que acessa desejos individuais e sonhos coletivos. Outro sinal importante é que as pessoas envolvidas cada vez mais se reconhecem parte da questão; reconhecem as outras pessoas da organização no mesmo status de importância e tratam sempre com mais e mais relevância os fenômenos de relações entre elas. As relações entre as pessoas passam a ser parte constitutiva da organização. Outras duas mudanças significativas no processo de consultoria podem ser o reconhecimento da organização como parte de sistemas maiores autoinfluenciáveis e, por fim, a consideração dos desafios, complexidades, paradoxos e contradições na vida dos projetos e organizações, antes rejeitados, tidos como empecilhos ao desenvolvimento, passam agora a ter destaque como elementos de revelação do que vive, como oportunizadores de aprendizagem.
Como criar as condições para que tudo isto ocorra? A prática do diálogo qualificado é nosso caminho privilegiado de intervenção. Praticamos o diálogo como método. Sempre digo: quando um consultor do Fonte ‘vai embora’, deve ficar mais que a ‘questão inicial’ trabalhada. Fica também o caminho trilhado, o método. Que no nosso caso é o diálogo. Desejo e trabalho para que meus clientes qualifiquem-se para sustentar conversas íntegras, densas e que suportem todo tipo de tensão. Qualificar a (própria) fala e a escuta são movimentos que caracterizam fortemente a atuação do Fonte no mundo. As conquistas que daí advêm são imensuráveis.
Não seria isso Arte?
.gif)