Consultoria de Processos: escuta, presença e criação
A gestão de iniciativas sociais é uma rica e desafiadora arena composta de riscos e oportunidades, de promessas, possibilidades e “becos-sem-saída”, características que costumam levar ao limite da ação, qualquer grupo dirigente e liderança. De forma nada surpreendente, lidar com o cotidiano da gestão e suas demandas, ora tão “mundanas” como o percentual do aumento do salário da equipe, ora tão “sublimes” como o efeito de um atendimento na vida de uma criança abrigada, e vice-versa, parece não ser tarefa para quem tem o coração fraco; ao menos, digamos, no sentido patológico.
No montanhoso dia-a-dia de cada gestor, um sem número de apelos manifestam-se em cada esquina da prática e do exercício profissional. Em certos momentos o questionamento está em torno da identidade da organização, em outros, são mecanismos de participação e legitimidade que nos apertam. E o fluxo nunca para: o desempenho das áreas, a atualização das políticas, a gestão financeira, a avaliação de resultados e a captação de recursos, o posicionamento estratégico, entre tantos outros; lidamos com um interminável pulsar organizacional, entre aquilo que quer nascer e quer partir, entre o firme e o inseguro, o criativo e o burocrático, o desejável e o não.
Há alguns anos trabalhando nesta arena, o Instituto Fonte tem voltado sua prática ao acompanhamento das organizações diante desses seus desejos e impasses, planos e armadilhas, de tudo isso que tanto barulho traz ao cotidiano. O que significam estes “acontecimentos” na vida das organizações? Seriam sintomas de algo que não vai bem? Manifestações de tudo aquilo que é invisível e que governa o sentido da ação? Que relações existem entre tais acontecimentos e cada sujeito em posição de liderança? Como intervir nestes processos e apoiar o amadurecimento, a qualificação e a sustentabilidade das organizações?
Ao valorizar o trabalho com cada indivíduo, gente que é também gestora ou educadora, conselheira ou voluntária, nossa prática de consultoria tem procurado sustentar uma releitura do velho lema do movimento feminista eclodido nos anos sessenta. Elas diziam: porque o pessoal é político. Isto que opera entre cada sujeito a partir de cada sujeito, que ocupa cada diálogo e afina cada entonação, que produz escolhas e opera na leitura de cada situação, constitui um ato político radicalmente ensurdecedor, desde que nos coloquemos dispostos a escutar. Pois, afinal, de onde surgem as dinâmicas organizacionais? Onde é possível construir soluções originais para o que encerra, bloqueia e desafia as organizações? Onde começa a construção de cada prática social? Onde é que o mundo começa a mudar?
Para abordar estes temas, neste Boletim Direto do Fonte convidamos um de nossos consultores associados para uma Conversa sobre a Prática. Em um texto produzido entre seminários e reuniões, entre mergulhos em realidades organizacionais e culturais tão distintas, Tião Guerra procura abordar o método de trabalho do Instituto Fonte à medida que partilha reflexões, perguntas e aprendizagens construídas ao longo de sua prática como profissional de desenvolvimento no: O que é fazer consultoria de processos? O que chamamos de trabalhar com o invisível? Quando uma conversa se torna uma intervenção? Que papéis cabem a um consultor de processos em situações sociais tão vivas e complexas? Se, então, o pessoal é político, quão políticas são as intervenções em processos de desenvolvimento organizacional? Quando nos implicamos e quando nos alienamos? O que é necessário para intervir de maneira tão respeitosa quanto ativa?
Neste boletim partilhamos também o lançamento da coletânea de textos “A Crise e os Profissionais de Desenvolvimento”, editado e publicado pelo Instituto Fonte e fomentado a partir do primeiro Reencontro de profissionais de desenvolvimento que constituem a comunidade do Programa Profissão Desenvolvimento. Na carta de abertura da coletânea, Débora Baesse, Diretora do Instituto de Cidadania Empresarial do Maranhão, fala do propósito do material.
Por fim, resgatamos neste boletim nosso desejo de partilhar os saberes que temos sido capazes de construir, bem como de ampliar as oportunidades de estudo, formação, aprofundamento e sistematização de experiências de gestão no campo social. O Portal Fonte, também em fase de remodelamento, apresenta uma bibliografia crescente sobre o tema, assim como têm sido fomentados os espaços programáticos de estudo e aprofundamento, como o Programa Profissão Desenvolvimento, as pesquisas e encontros do Projeto Avaliação e o Grupo de Apoio Profissional.
Esperamos que os conteúdos deste Direto do Fonte encontrem eco em suas demandas e experiências e fomentem momentos de conversa e estudo em sua organização. Nossos jeitos de gerir e liderar têm produzido o que em nossas organizações e comunidades? Fale conosco e boa leitura.
Rogério Silva![]()
Diretor Executivo
.gif)