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As eleições municipais e a renovação do papel das ONG´s - editorial

Editorial por Rogério Renato Silva, Diretor Executivo do Instituto Fonte
 

Caros leitores,

As recém-concluídas eleições municipais inauguram um novo ciclo de relações entre ONGs e Governos. Em tempos de intensa procura por alianças e redes, cooperação e parceria entre instituições e setores, a renovação de prefeituras e câmaras derrama sobre as ONGs um caldeirão borbulhante de perguntas: queremos influenciar os novos governos? Manteremos os convênios que garantem a realização de parte das nossas ações? Podemos ganhar mais autonomia em relação à prefeitura? Estamos dispostos a construir novas relações?

Essas não costumam ser perguntas fáceis. Ao lado do volumoso trabalho cotidiano, em equipes quase sempre reduzidas e frente a demandas sociais acachapantes, muitas vezes torna-se lamurioso viajar até a prefeitura e retomar as infindáveis negociações em torno de projetos, doações, transferências de patrimônios, funcionários e assim por diante. Cada ciclo administrativo, em razão das demandas que nos apresenta, parece ser um desafiador ritual de provação para as ONGs. Você já se viu neste lugar?

Se por um lado esta situação retrata certo tormento, por outro lado pode também ser a constatação do vívido e complexo amadurecimento sócio-institucional que vivemos no Brasil. Neste sentido, pode representar oportunidades de reflexão e diálogo sobre sustentabilidade nas ONGs e sobre seu papel educador nas relações com o Estado. Sua organização já se perguntou que Estado quer construir? De que maneira suas práticas influenciam a governança do território onde atuam? O que as relações com os governos ensinam? E os governos, eles estão aprendendo? Sabemos o que eles esperam da sua organização e vice-versa?

Na contramão da idéia de que “todos os governos são iguais, de que o Estado apenas complica as coisas e de que o investimento privado e a ação das ONGs vai resolver”, sustentamos a idéia de que universalidade, integralidade e efetividade nas ações sociais serão lugares alcançados a partir de profundos e perenes processos de aproximação, diálogo, negociação, cooperação e aprendizagem entre os diversos atores da sociedade brasileira. Posições setoriais narcisistas e ufanistas servem apenas para manter a desigualdade. Será que todo governo é mesmo igual? Será que toda relação intersetorial resulta na mesma coisa? Será que podemos compreender as raízes da intolerância e da descrença? É possível mudar?

Neste Direto do Fonte, o quarto boletim de 2008, procuramos problematizar alguns conteúdos em torno destes temas e regar o terreno sempre fértil para nossas aprendizagens. Uma vez mais nos deparamos com aquele que parece ser o principal desafio do campo social, o manejo das relações entre os setores, instituições, movimentos e entre cada sujeito: estamos abertos para enxergar os outros e suas demandas? Estamos dispostos a ajudar os outros a nos enxergar? Estamos dispostos a educar-nos, uns aos outros?

Para explorar estas questões e partilhar suas vivências e duvidas, fomos entrevistar sujeitos que têm dedicado parte expressiva de suas vidas às relações entre ONGs e Estado. Ouvimos Irma Passolini, gerente executiva do Instituto de Tecnologia Social (ITS), ONG que busca contribuir para a construção de "pontes" eficazes das demandas e necessidades da população com a produção de conhecimento nas instituições de ensino, ONGs, movimentos populares, poderes público e privado.

Também entrevistamos Flariston Francisco da Silva, coordenador do Centro Profissionalizante Padre Bello (CPA), na Zona Leste de São Paulo. Flariston, que já foi presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente do Município de São Paulo, divide conosco algumas sensações e nos provoca a pensar. Articulamos ainda à matéria algumas idéias de Oded Grajew, membro da equipe executiva do Movimento Nossa São Paulo e importante liderança do campo social brasileiro. Oded foi palestrante no terceiro encontro do Campo Social em Debate, iniciativa do Instituto Fonte coordenada por Arnaldo Motta, um dos nossos associados.

Em entrevista, Arnaldo Motta partilha conosco leituras do atual momento político do campo social brasileiro. Inspirado pelos eventos promovidos pelo Instituto Fonte neste semestre com Ivan Valente, Frei Betto, Oded Grajew e Francisco Whitaker (este a ser realizado no próximo dia 28), Arnaldo fala da atual crise dos movimentos sociais, da perda de espaços de oxigenação no campo social, da distância entre partidos políticos e eleitores e das novas formas de articulação da sociedade civil que fazem contraponto a este cenário.

Esperamos que os textos lhe façam sentido. Uma vez mais reafirmamos o compromisso do Instituto Fonte com a criação de espaços de reflexão, diálogo e construção entre os atores que fazem o dia-a-dia do campo social. Desejamos que este boletim favoreça sua aproximação com o tema das relações entre ONGs e governos e contribua para o processo de desenvolvimento de sua organização. Como sempre, que o boletim lhe seja um convite: que relações sua organização quer nutrir com os governos? Que papel sua organização quer ter nesta ciranda?  Fale conosco e boa leitura.
 

Rogério Silva
Diretor Executivo