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Importância do investimento qualitativo nas famílias

por Maria Cláudia Baima


A importância do investimento qualitativo nas famílias foi o tema da palestra de Rogério Silva, Diretor Executivo do Instituto Fonte, durante o I Fórum Regional Criança e Adolescente em Situação de Rua e Trabalho Infantil, que aconteceu no dia 7 de agosto de 2009, na Câmara Municipal de São Vicente, São Paulo.

De acordo com Rogério Silva, há quatro grandes campos que se destacam na prática do cotidiano das organizações e o principal desafio consistirá em balancear esses campos entre si. A armadilha estará em dar ênfase demais a somente um ou a alguns desses campos.

Esses quatro campos citados pelo palestrante são:

1. Campo das idéias – é a área das razões éticas pelas quais trabalhamos.
2. Campo dos recursos – é o campo que faz polaridade com o das idéias, ou seja, é o conjunto das coisas concretas que formam a estrutura da organização: imóvel, computadores, telefones e recursos em geral, inclusive financeiros.
3. Campo dos processos – é onde estão as técnicas e modelos de realizar as tarefas do cotidiano, é o modus operandi da entidade.
4. Campo da demanda – é onde a organização faz o vínculo com a comunidade, é aquilo que legitima a existência dessa organização.

O que acontece quando a organização põe mais atenção em um campo específico? Vejamos, de acordo com o palestrante, o que acontece quando a ênfase se dá em apenas um dos campos.

Campo das idéias – os membros da organização falam muito, planejam muito, pensam demais, porém não partem para a ação;

Campo dos recursos – pensam pouco, organizam muito. O gestor se preocupa mais em pintar a parede com tinta nova, em ter datashow e se perde nos outros campos.

Campo dos processos – a ênfase nesse campo implica em priorizar a redação de políticas de ação, desenvolver protocolos e memorandos, correndo o risco de burocratizar os processos.

Campo da demanda – a organização se orienta radicalmente para a demanda e vive “apagando incêndios”, tornando-se uma entidade reativa que só atende aquilo que bate à sua porta.

O campo da demanda merece um olhar especial de todos que atuam no atendimento de crianças e adolescentes que estão em situação de rua e/ou trabalho infantil. “Se não construirmos compreensão acerca dessa demanda, teremos a tendência de defini-la como algo estranho e sobre o qual não se tem governabilidade. Nossa reação ao estranho é esconder, apagar, sublimar e negar a incorporação desse estranho”, diz Rogério.

O problema de reagir assim a uma demanda, tentando fugir dela, é que ela provavelmente voltará. É assim também em nossa própria vida, pois tudo que reprimimos e escondemos tem grande potencial de retornar quando menos se espera e nos pega desprevenidos.

“Temos a tendência de fazer julgamentos morais antes mesmo de assumir uma postura mais investigativa da demanda que nos chega”, diz Silva. Isso acontece quando afirmamos algo do tipo: “eu já vi isso antes”, “sei como é isso”, “já aplicamos esse tratamento e não deu certo”.

Para evitar essa postura pré-julgadora, o palestrante deu algumas dicas de comportamentos indicados para lidar com as demandas nessa área de crianças e adolescentes em situação de rua e trabalho infantil. O primeiro deles seria admitir que a realidade de cada caso é única e muitas vezes incomparável. Em seguida é preciso começar a interagir com aquele caso específico e criar uma teoria original e própria para ele. Para isso, observar e escutar são atitudes fundamentais.

Ter cuidado e critério também é imprescindível. Devemos nos valer dos casos que nos chegam para estudar e aprender para construir padrões e, sobretudo, para entender nossa própria maneira de responder às demandas e perceber se estamos mais centrados na inclusão ou na exclusão e repressão. “Agindo assim damos espaço para o que costumo chamar de “eventos-sentinela”, ou seja, eventos que abrem nossa visão e ampliam nossa compreensão”, conclui Rogério Silva.

A sugestão deixada pelo palestrante se refere à adoção de uma postura de estudo menos focada em explicar a demanda-criança e mais orientada para conhecer e entender como funcionam nossos mecanismos de respostas, de processos e de atuação na rede. Sem dúvida uma postura ética recomendável para todos os campos da vida.

Fonte: Fundação Telefônica - Pro-menino